A VDA REFERE QUE INDÚSTRIA AUTOMÓVEL ALEMÃ ALERTA PARA PERDA DE COMPETITIVIDADE EUROPEIA E FUGA DE INVESTIMENTO
Na sua conferência de imprensa anual, a Associação Alemã da Indústria Automobilística (VDA) deixou um aviso claro: a recuperação económica e a relevância internacional da Europa dependem de um programa abrangente de reformas que torne o continente mais atrativo e competitivo para o investimento.
Hildegard Müller (presidente da VDA), reconheceu que estão a ser dados alguns passos em Berlim, mas manifestou forte preocupação com a atuação da Comissão Europeia. Segundo afirmou, sem força económica a Europa não conseguirá manter influência global, criticando o que considera ser uma resposta política ainda distante da realidade industrial.
Hildegard Müller (presidente da VDA) — Source: VDA
Europa sob pressão global
Müller destacou que a Europa enfrenta uma concorrência crescente dos Estados Unidos, da China e de outras regiões, alertando que o modelo europeu, baseado numa transformação fortemente regulada, tem revelado fragilidades. Na sua perspetiva, essa abordagem tem permitido que concorrentes ocupem espaço, reforcem a liderança económica e beneficiem da menor atratividade europeia, com impacto direto no emprego e na prosperidade.
Ainda assim, sublinhou que a Alemanha mantém vantagens estruturais importantes — mão-de-obra altamente qualificada, forte capacidade de inovação, um tecido industrial sólido e uma rede global de pequenas e médias empresas. O desafio, afirmou, passa por libertar esse potencial através de incentivos adequados, menos burocracia e maior confiança nas empresas.
Fábrica da Scania — Source: Scania
Críticas ao excesso de regulamentação
Relativamente ao chamado “Pacote Automóvel” em negociação em Bruxelas, Müller defendeu que a anunciada abertura tecnológica deve traduzir-se em medidas concretas. Para a dirigente, a política europeia deve abandonar uma lógica assente em obrigações e penalizações e apostar antes em incentivos orientados para o mercado. Alertou ainda que metas climáticas mais exigentes, sem condições realistas de implementação, não oferecem previsibilidade à indústria.
Necessidade de uma nova cultura de debate
A presidente da VDA considerou igualmente que reformas estruturais exigem uma mudança na cultura de debate público, criticando a polarização e a instrumentalização política de propostas económicas. Sem decisões firmes e diálogo construtivo, afirmou, será difícil garantir sistemas sociais sustentáveis e preparar o futuro industrial europeu.
Fábrica da IVECO — Source: IVECO
Investimento e emprego em queda na Alemanha
Os resultados de um inquérito realizado pela VDA a 124 empresas do setor confirmam a pressão sobre a Alemanha como polo industrial.
- 72% das empresas planeiam adiar, transferir ou cancelar investimentos no país.
- 28% pretendem deslocar investimentos para o estrangeiro, 25% adiá-los e 19% cancelá-los.
- Enquanto 33% das empresas tencionam reduzir investimento na União Europeia, apenas 3% planeiam fazê-lo nos EUA e 5% na China.
O impacto já se reflete no emprego: em 2025, cerca de 64% das empresas reduziram postos de trabalho na Alemanha, muitas vezes transferindo atividade para outros mercados. Atualmente, quase metade continua a diminuir o número de trabalhadores no país, e nenhuma empresa indica estar a relocalizar produção do estrangeiro para território alemão.
Fábrica da IVECO BUS — Source: IVECO BUS
Um sinal de alerta económico
Para Hildegard Müller, os dados demonstram que a Alemanha não enfrenta apenas uma crise industrial, mas sim «uma crise económica profunda», com deterioração rápida das condições de investimento na Europa. A dirigente defende que políticas orientadas para o crescimento devem tornar-se prioridade em Bruxelas e Berlim, advertindo que tendências isolacionistas só agravariam a perda de competitividade de uma indústria fortemente exportadora.
O estudo foi realizado entre 11 e 25 de janeiro e integra uma monitorização regular da VDA às perspetivas do setor automóvel, conduzida desde 2020.